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Trabalhando as dificuldades e transtornos de aprendizado em sala de aula

Os transtornos de aprendizagem acompanham estudantes de maneiras, muitas vezes, traumáticas. No texto a seguir, são expostas as diferenças entre dificuldades e transtornos de aprendizagem e dados sobre o assunto. Confira!

 

As dificuldades de aquisição de conhecimentos em sala de aula são tão diversas que, desde a National Joint Committee on Learning Disabilities – NJCLD, convenção interdisciplinar que procurou esclarecer transtornos da linguagem e dificuldades de aprendizagem, em 1994, temos definições que são insuficientes para responder à complexibilidade que a problemática pede.

Existe uma enorme variação e tipos de dificuldades, bem como doenças, caso da depressão, e distúrbios em geral, que podem afetar o desenvolvimento em sala de aula. Além disso, podem acontecer combinações de outros fatores, como os sociais e psicológicos, que também possuem grande diversidade. TDAH, ansiedade, TOC, incapacidade social, depressão e suicídio são alguns dos assuntos que vamos tratar neste artigo. Do mesmo modo, vamos refletir sobre o que pode ser feito dentro de sala para auxiliar aos alunos que se encontram em condições que demandam maior atenção.

O que são as dificuldades de aprendizagem

Ainda hoje existe uma certa dificuldade em se firmar um conceito sobre o que são as dificuldades de aprendizado, um verdadeiro contraponto, mas, tomaremos uma definição como ponto de partida. Veja:

As dificuldades de aprendizagem específicas podem, assim, manifestar-se nas áreas da fala, da leitura, da escrita, da matemática e/ou da resolução de problemas, envolvendo défices que implicam problemas de memória, perceptivos, motores, de linguagem, de pensamento e/ou metacognitivos. Estas dificuldades, que não resultam de privações sensoriais, deficiência mental, problemas motores, défice de atenção, perturbações emocionais ou sociais, embora exista a possibilidade de estes ocorrerem em concomitância com elas, podem, ainda, alterar o modo como o indivíduo interage com o meio envolvente. (CORREIA, 2008, p. 165)

Ainda que essa definição de Correia seja mais recente, leve em consideração algumas variações de parâmetros que determinam as dificuldades de aprendizagens e, por isso, pode ser mais aceitável, não vamos nos limitar à ela. Vamos dar atenção ao que as coexistências dessas dificuldades, tão próprias e subjetivas de cada sujeito, causam no processo do aprendizado: o baixo desempenho esperado. E, também, como podemos colaborar para melhorar essa situação em sala de aula.

É bom deixar claro que esse desempenho abaixo do que se espera não é sinônimo de incapacidade, mas sim que essas crianças são afetadas em sua potencialidades em sala de aula, o que ocasiona certas oscilações no humor e no processo de aprendizado. Dentro das possibilidade de efeitos que isso causa, os mais notáveis, segundo duas autoras americana, Smith e Strick, são os que englobam a apreensão pela visão, o procedimento do desenrolar linguístico, a adequação social, as habilidades motoras finas e a capacidade para focalizar a atenção.

As duas autoras americanas fazem um questionamento no livro “Dificuldades de Aprendizagem de A a Z” (2007), sobre como uma criança pode ler muito bem um trecho e logo após esquecer completamente o conteúdo do que foi lido: “Como um aluno que lê três anos à frente do nível de sua série entrega um trabalho por escrito completamente incompreensível?” (SMITH E STRICK, 2007, p.15). Isso acontece muito dentro de sala, e por inúmeras vezes o professor fica sem respostas.

Para auxiliar os docentes, em sua obra, Smith e Strick formularam uma categorização das dificuldades de aprendizagem mais comuns. Elencamos algumas delas: 1) dificuldade em prestar atenção às aulas, 2) seguir instruções simples, comportar-se socialmente, dando a ideia de imaturidade social, 3) dificuldades em expressar o que pensa em palavras, 4) inflexibilidade ao realizar alguma atividade, 5) confusão em planejamento, 6) distração, dentre outros; (Adaptado)

Pela lista que fazem as autoras, e levando em consideração a rotina dentro das escolas, parece-nos que os problemas de aprendizagem são facilmente visíveis e que podem ser resolvidos, já que lidamos com isso no dia a dia, e eles aparentam ter mais relações com questões comportamentais. Verdade. Mas, essas dificuldades, por N motivos, aparecem tão discretamente, que às vezes dão a entender que o aprendiz não possui problema algum. Situação que nos fazer pensar, pelo menos de início, que essas crianças conseguirão levar a vida normalmente, mesmo com algumas dificuldades.

E, de fato, segundo a  INTERNATIONAL DYSLEXIA FOUNDATION, por exemplo, “a dislexia e a inteligência não estão conectadas. Muitos disléxicos são muito brilhantes e criativos, e vão realizar coisas incríveis quando adultos.” A dislexia é um dos transtornos de aprendizagem que, segundo a mesma instituição, está presente em aproximadamente 15% a 20% da população mundial. Esse dado esclarece mais sobre um mito: o de que as pessoas inteligentes não podem ter dificuldades ou mesmo transtornos de aprendizagens. Essas diversas condições são completamente normais e cabe aos educadores o reconhecimento dessas realidades e a sensibilidade para lidar com elas.

Esperamos que as diferenças entre as dificuldades e os transtornos de

aprendizagem tenham ficado esclarecidas, até aqui. No tópico que vem aí, vamos falar mais sobre alguns transtornos específicos de aprendizagem.

O que são os transtornos de aprendizagem

Diferente das dificuldades de aprendizagem, os transtornos têm origem neurobiológica. Portanto, razão que foge de nossas capacidades, seja como educadores, seja como alunos. Por exemplo, estudantes que possuem algum transtorno de aprendizagem, podem “atrasar” em começar a falar ou mesmo não conseguir trabalhar com canções e rimas em sala de aula. Depois, ocorre dificuldades em escrever os conteúdos do quadro, em simplesmente escrever e, com o tempo, fica nítido que toda a turma está um passo à frente desse aluno. Se isso vir acompanhado de nenhum comportamento diferente observado pelo professor na rotina da sala, como na interação com outros discentes, e a vontade de aprender, é muito provável que se trata de um transtorno e não de uma simples dificuldade.

Vamos falar um pouquinho sobre dois dos mais conhecidos transtornos:

1) Dislexia

Segundo definição adotada pela Associação Brasileira De Dislexia (ABD), é um transtorno específico de aprendizagem de origem neurobiológica, caracterizada por dificuldade no reconhecimento preciso e/ou fluente da palavra, na habilidade de decodificação e em soletração. Essas dificuldades normalmente resultam de um déficit no componente fonológico da linguagem e são inesperadas em relação à idade e outras habilidades cognitivas.

Em outras palavras, em comparação aos outros colegas de idades semelhantes, os que possuem dislexia terão o rendimento pior na escrita e leitura, por exemplo. Na idade escolar, o aluno com dislexia apresenta algumas características, tais como: a confusão para indicar entre esquerda e direita; a dificuldade em manusear listas telefônicas, manuais, mapas, dicionários, etc; ou vocabulário limitado, com construções muito breves e pouco  ou mesmo muito extensas ou vazias de sentidos.

Somente uma investigação mais apurada, que conta com entrevista com neuropsicólogos, exames ou mesmo avaliações multidisciplinares, poderá concluir um diagnóstico mais preciso. O professor pode até perceber algumas características, mas nunca vai diagnosticar se o aluno é ou não disléxico. Isso cabe a uma equipe que vai avaliar parâmetros fonoaudiólogos, psicológicos, psicopedagogos, entre outros. O diagnóstico da dislexia só é possível mediante avaliação profissional.

Já o  tratamento depende de um esforço em conjunto: profissional, escolar e familiar. Esse esforço é denominado intervenção, e será feito sem uso de medicamentos, por meio de especialistas como o psicólogo, o fonoaudiólogo e o psicopedagogo. É essencial que os educadores e os pais do aluno estejam conscientes que existem muitas crianças na mesma situação e se atentem aos sinais do transtorno. Com a participação de todos no processo de adequação, a intervenção psicopedagógica vai explorar os talentos, estimular maneiras diferentes de compensar o aprendizado e atividades específicas para o desenvolvimento da leitura, escrita e memória. Desse modo, o aluno disléxico poderá se desenvolver sem grandes perdas.

1.1. Dislexia - O que pode ser feito em sala

Primeiramente, o professor não deve confundir o distúrbio com a possível incapacidade intelectual e cognitiva do aluno com dislexia. Esse é um mito que já desmascaramos lá em cima no primeiro tópico, embasados por evidências científicas atuais, e que deve, definitivamente, ser deixado de lado.

Diante do que propõe a nossa legislação, por meio da lei 9.394, de 20/12/96 (Lei de Diretrizes e Bases da Educação), por exemplo, a escola deve prover meios para a recuperação dos alunos de menor rendimento (inciso V), é importantíssimo rever estratégias do Regimento Escolar, considerando a situação do aluno na Proposta Pedagógica. Assim como, é essencial deixar todos os membros da comunidade escolar informados sobre o caso de dislexia, como tem sido desenvolvido, os resultados, as metodologias, etc.

Os testes e avaliações vão oferecer a indicação de acompanhamento específico de um ou mais profissionais, de acordo com o tipo e nível de dislexia constatado. Assim sendo, a escola precisa testificar de que a transmissão, a divulgação e o entendimento das informações sejam feitas entre a instituição, os pais, e os agentes emaranhados no processo.

Entre as medidas que podem ser tomadas para se trabalhar com o aluno disléxico em sala, a ABD organizou alguns procedimentos básicos de orientação para os educadores, como: a) tratar o aluno disléxico com naturalidade; b) usar linguagem direta, clara e objetiva quando falar com ele; c) conversar olhando diretamente; d) trazer o estudante para perto da lousa e da mesa do professor, para favorecer o diálogo, facilitar o acompanhamento  e a orientação; e) verificar sempre e discretamente se o aluno demonstra entendimento da exposição; f) certificar se as instruções para determinadas tarefas foram devidamente compreendidas; g) se há integração com os colegas, entre outras. Para dicas mais detalhadas, você pode clicar aqui e conferir um artigo sobre o tema na íntegra.

2) TDHA

É “um diagnóstico psiquiátrico, baseado em respostas a itens que constam em um questionário do DSM - Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais - (APA 2003), que descreve nove comportamentos ligados à falta de atenção, seis à hiperatividade e três referentes à impulsividade. Ele é feito quando seis (ou mais) dos sintomas enumerados persistiram por no mínimo seis meses, com evidente prejuízo funcional. Esses sintomas devem se manifestar em pelo menos dois contextos, no caso de crianças, os ambientes doméstico e o escolar. Pode predominar a desatenção ou a hiperatividade, ou os quadros podem ser mistos. Alguns dos sintomas já estariam presentes antes dos sete anos de idade e não se apresentariam exclusivamente associados a outros transtornos mentais.”

A definição acima é de Maria Thereza de Barros França, psiquiatra e membra efetiva e psicanalista de crianças e adolescentes da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP). A especialista, em seu artigo “Transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH): ampliando o entendimento” , publicado no Jornal de Psicanálise, esclarece que, apesar de existir uma controvérsia sobre a origem do transtorno (para a psiquiatria o TDAH é uma afecção neurocomportamental) no meio científico, “com respeito a fatores genéticos a maior frequência de TDAH em parentes de primeiro grau de crianças com o transtorno, atestaram a forte presença de fatores genéticos, mas as influências da escola, da família e dos pares são consideradas importantes na determinação do grau de comprometimento.”

Basicamente, quem sofre com o transtorno terá déficit de atenção, hiperatividade, impulsividade ou outros problemas associados, relacionados a irregularidades na atuação de áreas no cérebro, principalmente as corticais pré-frontais. Essas alterações podem se relacionar entre si ou mesmo com outras dificuldades de aprendizagem, compondo um quadro clínico.

Algumas alterações de neurotransmissores, como os de dopamina, ligados ao comportamento, atividade motora, motivação, regulação do sono, humor, ansiedade, e aprendizado; e de noradrenalina, hormônio ligado a sensação de estresse, aparecem em novas pesquisas de neuroimagem e neurobiologia molecular. Elas evidenciaram mudanças no tamanho do cérebro e das estruturas do sistema nervoso central (SNC) de portadores de TDAH (Lamberte & Kinsley, 2006; Rhode & Halpern, 2004 citado por Leonardi et al, 2011). Ainda segundo Maria Thereza, essas alterações não só embasam a origem genética do problema, como também a interferência do meio que o estudante vive (social, familiar, etc). Além disso, há trabalhos mostrando como as experiências iniciais, as trocas afetivas "esculpem" o sistema nervoso (Cunha, 2001).

A psiquiatra ainda esclarece que “infelizmente o desenvolvimento científico ainda não deu conta de provar que essas dificuldades são fruto dos nossos genes e não nos resta nada além de admitir que as relações, os contextos escolar e familiar devem ser considerados?”

O tratamento do TDHA deve ser feito de forma multidimensional, tendo em consideração tanto as questões biológicas do sujeito, quanto as de comportamento, emoção, social e de aprendizado. Por isso, geralmente, para tratar o transtorno são usadas intervenções psicossociais, sendo a terapia cognitivo-comportamental (TCC) uma das mais comuns, além de também serem usados medicamentos específicos, como o uso de metilfenidato ou mesmo antidepressivos. Ultimamente, terapias mais alternativas tem ganhado força, já que houve um avanço nos conhecimentos sobre a doença e esses procedimentos são menos invasivos.

2.1 TDHA - O que pode ser feito em sala

O último Diagnostic and Statistical Manual, composto pela Associação Psiquiátrica Americana (American Psychiatric Association – APA) aponta que 3 a 7% das crianças em idade escolar convivem com o TDHA. Logo, possivelmente você, mesmo sem ter ciência disso, já deve ter tido contato com algum aluno nessa situação. Aí nasce a questão: como lidar?
Richard Friedman, professor de Psiquiatria Clínica e Diretor da Clínica Psicofarmacologia no Weill Cornell Physicians, divulgou um artigo, “Uma correção natural para o TDAH”, no NY Times e inspirou a categorização pela Edudemic, revista científica, de cinco maneiras criativas para lidar com o aluno portador de hiperatividade em sala de aula. A seguir, vamos resumi-los brevemente:
1) “Faça você”. Muitos alunos com TDAH respondem melhor a aprendizagem “prática”: muitas vezes é melhor “fazer” em vez de “contar”. Manipular peças, digitar em um computador, fazer desenhos para um livro da aula, estudar ciências em um laboratório, participar de feiras ou ainda ser “professor por um dia”, essas atividades auxiliam a construir e desenvolver a confiança.
2) Torne a “leitura” um pouco mais curta e faça com que os alunos variem as atividades. Embora seja importante manter a organização para os alunos com TDAH, mudar a rotina de vez em quando ajuda a evitar o tédio. Incentivar estes alunos a pegarem atividades extracurriculares também pode ser útil.

3) Coloque alguns movimentos nos seus planos de aula. Há muitas maneiras criativas de incorporar o movimento em sala de aula. Ao revisar questões para um próximo teste, experimente jogar uma bola para os alunos que deseja chamar em vez de chamá-los pelo nome. Interpretar grandes cenas da história fará com que os fatos e as datas “sejam gravados” mais profundamente pelos alunos, assim como atuar e “sonorizar” alguns personagens ajudam quando você estiver ensinando uma turma a ler.

4) A atenção plena Mindfulness está se tornando uma técnica cada vez mais popular, e que pode ser particularmente útil para os alunos com TDAH. Exercitar a atenção plena e a dedicação ao que se está fazendo no momento ajuda o estudante a saber quando é hora de parar por um momento e refletir sobre o que você disse previamente.

5) Crie um programa de tutoria. Os alunos com TDAH precisam de atenção extra no desenvolvimento de suas ferramentas e estratégias para aprender em sala de aula. Turmas menores seriam ideais, mas um programa de tutoria ou mentoring também é bastante útil. Com uma atenção direcionada, os alunos com TDAH terão alguém para auxiliar em seu progresso, ajudando-os a desenvolver as qualificações de que necessitam para atuarem bem a escola e fora dela.

 

 

Vimos que existem grandes diferenças entre as dificuldades e os  transtornos de aprendizagem, que estão sujeitas aos conceitos e as diversidades dada por cada segmento científico: Medicina Tradicional, Medicina Alternativa, Psicanálise, etc. Além disso, é importante lembrar que em certos níveis e com certa frequência, esses problemas iniciais podem evoluir e, associados a outros, como sociais, históricos e políticos, ou mesmo com os transtornos, podem implicar em baixa auto-estima, solidão, ou depressão. Falamos sobre a última, uma doença muito comum atualmente, neste artigo. Isso tudo porque o estudante se sente insatisfeito com os resultados na escola, ainda que esteja se esforçando.

Independente de como são definidos ou por qual área de conhecimento são tratados esses obstáculos, podemos chegar a um consenso: é necessário observar melhor os alunos em sala de aula, antes de julgá-los incapazes de realizar certas tarefas. Isso porque as dificuldades e os transtornos de aprendizagem são dificilmente diagnosticados, por conta da maneira particular com que costumam se manifestar: por meio de um comportamento aparentemente indisciplinar. Compreender melhor sobre a natureza, saber diferenciar as causas das dificuldades e outros problemas diversos, é fundamental para auxiliar a construção do indivíduo em sala, assim como seu caminho para que vença os desafios.

É preciso se informar antes de tudo, a fim de poder reconhecer quais são alguns dos princípios da dificuldade de aprendizagem, sendo assim, as barreiras da patologização e da culpa, que interferem no diagnóstico e no melhor tratamento, serão finalmente superadas, garantindo uma melhor qualidade de vida ao estudante, tanto no ambiente escolar como no familiar. Como educadores, precisamos nos atentar À causa e nos sensibilizar ao ponto sermos participantes no reparo das dificuldades que nossos alunos enfrentam.

 

Fonte:

Redator, social mídia, pesquisador e entusiasta das artes pelo Cena Livre de Teatro, grupo atuante na UFMT. Aluno do terceiro ano de Letras-Literatura na instituição federal, e fotógrafo nas horas vagas.


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